O Intervalo como Linguagem: O Percurso de Criação de MEIOS
- Dan Azvdo

- 26 de nov. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 26 de nov. de 2025

Desde que iniciei o percurso que culminaria na coleção MEIOS, compreendi que não se tratava apenas de projetar mobiliário, mas de experimentar, no limite das formas e dos discursos, aquilo que a matéria insiste em revelar quando é convocada para além de sua função utilitária. Trabalhar nesta coleção significou, para mim, escavar territórios que antes permaneciam silenciosos, como se o gesto de projetar fosse também o gesto de reconhecer a dimensão política do objeto, sua condição de agente crítico dentro da paisagem contemporânea. Ao longo do processo de pesquisa, percebi que a matéria não é neutra, assim como o tempo tampouco o é; ambos carregam camadas de história, memória e tensão, que só emergem quando são provocadas com cuidado, rigor e um olhar atento aos ruídos que insistem em se insinuar pelas frestas da forma.
O nome MEIOS surgiu muito antes de qualquer teste de materialidade. Ele me apareceu primeiro como uma inquietação, como se eu estivesse diante de uma fenda, um intervalo entre duas certezas, um território onde o mundo se mostra mais pelas suas dúvidas do que pelas suas conclusões. Ao caminhar por essa ambiguidade, percebi que o “meio” não é apenas o entre-lugar que separa uma origem de um fim; ele é o espaço no qual a vida efetivamente acontece — onde se sobrepõem contradições, afetos, tensões sociais, gestos interrompidos e reinícios inesperados. A coleção, portanto, nasce do desejo de transformar esse intervalo em linguagem.
Meu processo de pesquisa começou com uma série de leituras filosóficas e observações cotidianas que me levaram a refletir sobre como os gestos humanos são sempre mediados por estruturas — sejam elas materiais, simbólicas ou políticas. A função de uma estrutura nunca é apenas estruturar; ela regula, orienta, condiciona e, sobretudo, revela. Foi nesse ponto que compreendi que a própria função dos objetos poderia ser tensionada para além da ergonomia ou da composição: o mobiliário poderia operar como metáfora, como texto silencioso que denuncia, interroga e desloca.
A partir dessa percepção, a coleção começou a tomar corpo como um estudo sobre sistemas — de força, de equilíbrio, de suporte, de resistência — mas também como um estudo sobre interrupções. Em uma sociedade marcada por pressas, urgências e automatismos, pensei em criar peças que convocassem o olhar a desacelerar, a observar o modo como linhas e volumes se encontram, como o corpo negocia com o objeto e como o espaço se transforma quando uma estrutura se posiciona nele. Trabalhar com essa lógica exigiu de mim um mergulho profundo nos fundamentos da Gestalt e na maneira como o olhar humano completa o que falta, reorganiza o caos, cria simetrias onde só existem fragmentos. A coleção MEIOS nasce, portanto, como um conjunto de objetos que problematizam a percepção enquanto propõem uma crítica sutil às formas de leitura que nos são impostas pela cultura contemporânea.
Foi fundamental revisitar conceitos da psicologia da forma, especialmente as ideias de fechamento, continuidade, proximidade e figura-fundo. Percebi que, ao manipular esses princípios, eu poderia conduzir a percepção do observador não apenas para a leitura do objeto, mas para a leitura de si mesmo diante do objeto. Cada banco, cada mancebo, cada estrutura vertical ou horizontal que compõe a coleção opera como um enigma visual, uma espécie de provocação que interrompe a expectativa e abre caminho para uma experiência mais profunda. Em MEIOS, nada está totalmente explícito; há sempre um contorno que não se fecha, uma linha que escapa, uma junção que se resolve no limite da tensão.
Mas o processo de pesquisa nunca foi apenas formal. Ao contrário, a forma veio muito depois. Antes dela, havia a urgência de compreender o mundo que me atravessa enquanto sujeito, enquanto corpo, enquanto pesquisador de matérias e memórias. O contexto urbano, com suas estruturas expostas e suas tensões sociais visíveis a olho nu, foi uma das primeiras fontes de inquietação. Vi pontes, traves, grades, suportes metálicos, estruturas industriais, galpões, andaimes — todos testemunhos de uma cidade que se ergue a partir da instabilidade. Esses elementos, muitas vezes ignorados pelo olhar apressado, revelam uma coreografia de forças em disputa constante: sustentam, apertam, comprimem, equilibram, cercam, delimitam. A coleção MEIOS é, em grande parte, resultado de observar e decodificar esses sistemas urbanos.
A escolha do aço como material principal deriva dessa observação. O aço, ao contrário do que muitos supõem, não é apenas força: ele é memória. Cada dobra, cada solda, cada milímetro calculado carrega em si a tensão entre o que permanece e o que pode ceder. Trabalhar com aço é aprender a negociar, a escutar, a reconhecer que a rigidez pode ser também elasticidade, e que a forma só existe plenamente quando o material concorda em sustentá-la. Essa negociação com a matéria passou a ser um dos pilares conceituais de MEIOS. Eu queria que o público percebesse o aço não como dureza, mas como movimento; não como imposição, mas como mediação.
A madeira aparece na coleção como contraponto — como sopro, como pausa, como respiro. Ela suaviza, acolhe, estabiliza. A madeira, especialmente quando escolhida com rigor e respeito à sua história natural, permite que o aço revele sua delicadeza. Foi interessante perceber que, ao contrário do imaginário comum, não é a madeira que humaniza o aço: é o encontro entre os dois que produz humanidade. Um só não existe plenamente sem o outro. Essa constatação tornou-se central no desenvolvimento das peças finalizadas.
Ao longo dos meses de pesquisa, percebi que meu interesse não estava em criar objetos “bonitos”, mas em construir relações. Cada encontro entre materiais carrega uma carga simbólica: o toque frio do metal que se alivia no calor da madeira; a verticalidade rígida que se resolve no apoio sereno de um assento; o peso que se acomoda na leveza; a linha que se transforma em gesto. Esses encontros são, em si, metáforas do convívio humano, onde diferenças precisam se acomodar para que algo novo possa emergir.
Mas MEIOS também é sobre fricção — a fricção que existe entre aquilo que se espera de um objeto e aquilo que ele oferece; entre a função e a crítica; entre a utilidade e o discurso; entre o objeto e o corpo; entre o corpo e o espaço. Fiz questão de que todas as peças carregassem em si essa dimensão política, mesmo que silenciosa. A crítica social está ali, mas de forma sutil, elegante, contida. Ela se manifesta na geometria que interrompe o caminho esperado do olhar; na ausência calculada de um apoio; na linha que se dobra apenas quando necessário; na tensão que se mantém sem, contudo, partir. Para mim, isso é política: questionar as estruturas sem necessariamente destruí-las, tensionar o que é dado como certo, criar espaços de dúvida e pensar o objeto como ato de resistência.
O mancebo, por exemplo, surgiu de uma reflexão muito íntima sobre as estruturas invisíveis que sustentam nossos dias: o que carregamos, o que penduramos, o que deixamos repousar depois de um ciclo cansado. Mas, ao invés de criar um suporte óbvio, decidi tensionar a relação entre verticalidade e equilíbrio. O mancebo de MEIOS é, ao mesmo tempo, estrutura e pergunta. Ele sustenta, mas também exige que se observe o modo como ele se sustenta. Ele acolhe, mas antes disso obriga o olhar a atravessar sua geometria. Da mesma forma, os bancos da coleção não são apenas bancos: são interrupções. São pausas necessárias, pontos de inflexão que obrigam quem se senta a perceber que sentar também é um ato político, um ato de presença, um ato de ocupar o espaço.
A pesquisa também se aprofundou no campo da crítica institucional presente na arte contemporânea. Há muito tempo os museus, galerias e espaços culturais discutem como a forma, a cor e a materialidade podem operar criticamente no espaço expositivo. Eu quis trazer esse debate para o universo do design. Em MEIOS, o objeto não é apenas objeto: ele é agente discursivo. Ele existe no mundo e, ao existir, interfere no mundo. Enquanto projetava, percebi que cada peça era uma espécie de enunciado — não um enunciado gritado, mas murmurado. Elegante, contido, preciso. Quis que a coleção carregasse essa sofisticação que provoca sem ferir, que tensiona sem colapsar, que questiona sem gritar.

O processo de pesquisa foi também profundamente intuitivo. Houve dias em que a coleção me exigia silêncio absoluto — como se cada milímetro de aço precisasse ser escutado antes de ser dobrado. Houve outros em que o gesto era urgente, quase impulsivo, como se a forma estivesse pronta e apenas pedisse passagem. A alternância entre razão e intuição, entre cálculo e improviso, entre desenho e gesto, fez parte da construção da coleção tanto quanto os materiais. Percebi que MEIOS não poderia nascer de um processo linear. Ela só faria sentido se fosse construída a partir desse movimento constante entre ordem e desordem, entre estrutura e liberdade.
Também me dediquei a observar a presença do vazio. O vazio não como ausência, mas como potência. A Gestalt me ensinou que o vazio faz parte da forma — e que a forma só existe porque o vazio a contorna. Em MEIOS, o vazio é tão importante quanto o material. É ele quem organiza a respiração da peça, quem cria ritmos, quem provoca deslocamentos. O vazio é o verdadeiro articulador da coleção. Sem ele, tudo seria literal demais. E eu jamais quis literalidade. Quis sugestão, quis poesia, quis silêncio. Gosto de pensar que MEIOS é uma coleção que respira — e que respira porque o vazio opera como elemento vivo em cada peça.
Enquanto desenhava, percebi que as estruturas criadas evocavam, de maneira quase involuntária, os andaimes urbanos — esses corpos metálicos que se erguem temporariamente para sustentar, restaurar, reconstruir. Há algo de profundamente poético nos andaimes: eles existem para viabilizar o trabalho, para tornar possível o cuidado. Mas desaparecem quando tudo está pronto. São presenças transitórias, estruturas que afirmam e ao mesmo tempo negam sua própria permanência. Essa lógica me seduziu profundamente. Em MEIOS, algumas peças carregam essa sensação de transitoriedade: parecem provisórias, parecem estar a caminho de outra coisa, parecem não estar totalmente prontas. Esse quase inacabamento, essa suspensão, é parte da crítica: o mundo também está sempre a caminho, sempre inacabado, sempre em reconstrução.
Durante a pesquisa, fui confrontado com uma pergunta recorrente: até que ponto o público precisa compreender a intenção por trás da forma? Logo entendi que a compreensão não deveria ser um requisito. A coleção não pede explicação — ela oferece experiência. O público não precisa decifrar a peça como se fosse um código secreto; basta deixar-se tocar por ela. A forma fará o resto. Acredito profundamente que o design autoral deve operar nessa dimensão sensível, onde o intelecto não anula o afeto e onde o afeto não dispensa a reflexão. MEIOS se posiciona exatamente nesse ponto de encontro.
Em alguns momentos, revisitei memórias pessoais — especialmente aquelas relacionadas à minha própria vivência urbana e ao modo como cresci observando as estruturas ao meu redor. Lembro-me dos galpões industriais, das grades das janelas, das traves que sustentavam telhas improvisadas, das estruturas de ferro que meus vizinhos erguiam nos fins de semana para construir um cômodo a mais. Cresci entendendo que construir é um gesto de sobrevivência. E, de alguma forma, MEIOS carrega essa memória silenciosa: a memória de quem constrói com os meios que tem. A coleção é, portanto, também um tributo aos gestos populares de resistência, ainda que manifestados aqui de maneira sofisticada e minimalista.

Ao final de todo esse percurso, compreendi que MEIOS é uma coleção sobre limites — os limites da forma, da matéria, da percepção, da cultura, da política, da memória, do corpo. Mas é também uma coleção sobre atravessamentos. O meio é onde tudo se encontra: forças, tensões, histórias, materiais, gestos, afetos. O meio é onde as coisas ganham sentido. O meio é onde a vida insiste. O meio é onde eu existo enquanto designer.
MEIOS não é um conjunto de peças: é um campo de relações. É uma coleção que desafia, que provoca, que abraça e que questiona. Ela não busca agradar; busca deslocar. Não busca confirmar expectativas; busca abrir espaço para outras formas de olhar. Talvez por isso, ao final do processo, eu tenha percebido que não fui eu quem criou MEIOS — foi MEIOS que me recriou. Cada dobra de aço, cada inserção de madeira, cada vazio calculado, cada tensão preservada reorganizou meus modos de pensar, meus ritmos internos, meu próprio olhar para o mundo.
E é assim que entrego esta coleção: como quem reconhece que criar é também ser criado pelo que se cria. MEIOS é gesto, é crítica, é poesia e também é sobrevivência. É intervalo e é travessia. É estrutura e é silêncio. É resistência e é delicadeza. É o lugar onde escolhi permanecer — no meio — porque é lá que as coisas realmente acontecem.




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