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Entre memória, matéria e crítica: o gesto íntimo que origina meu design

  • Foto do escritor: Dan Azvdo
    Dan Azvdo
  • 26 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

Dan Azvdo

Meu processo de criação não começa na superfície de um desenho, mas no abismo silencioso da memória. Antes de existir qualquer linha, qualquer material, qualquer forma, existe um território que habito desde sempre: a memória das mulheres que me criaram, da casa da periferia onde cresci, das pequenas materialidades do cotidiano que moldaram meu olhar para o mundo — e, consequentemente, para o design. O que faço hoje, como designer e pesquisador da cultura material brasileira, nasce desse encontro entre vida e linguagem. Interesso-me profundamente pela pergunta: como a memória se transforma em matéria? Essa pergunta é o núcleo da minha prática.


Eu sei que não desenho objetos: eu escrevo sobre eles com o corpo. Meu trabalho é movido por uma espécie de arqueologia íntima — uma escavação contínua de camadas de afeto, dor, resistência e ancestralidade. Sou um designer que pensa o objeto não apenas como função, mas como testemunho. Para mim, o que chamam de “design autoral” é, antes de tudo, um gesto de autoria sobre a própria história. E talvez seja por isso que meu processo é, inevitavelmente, íntimo. Não consigo separar quem sou daquilo que projeto; não consigo apartar o desenho do que vivi.


Onde tudo começa: no corpo da memória


Meus primeiros repertórios de forma não vieram de livros de design, museus ou escolas. Vieram da minha casa. Da madeira velha que sustentava o armário da minha avó. Da mesa improvisada que meu avô fazia com tábuas reaproveitadas. Do sofá na cozinha que era sala, era cama, era praça, era tudo. Era ali que a vida acontecia. Eu não sabia, naquela época, que esses objetos seriam meu primeiro museu. Mas eram. E ainda são.


Entendi, muito cedo, que o design não era sobre glamour — era sobre sobrevivência. Sobre encontrar beleza no que existe, mesmo quando falta. Sobre transformar pouco em muito. Sobre criar sentido onde aparentemente não há. Percebo hoje que minha estética nasce dessa ambivalência: o desejo de honrar a precariedade sem estetizá-la; o desejo de reconhecer a ausência como linguagem; o desejo de transformar marcas de vida em forma.


Quando comecei a criar minhas próprias peças, meu instinto foi retornar a essas memórias. Mas não desejava replicá-las. Desejava interpretá-las. Reconheci que a memória, para mim, não é um lugar de nostalgia, mas de potência crítica. É ali que resgato histórias que não podem ser esquecidas — histórias de resistência, de afeto, de apagamentos históricos, de presença e de luta.


O design como escrita: a palavra que antecede a forma


Antes do primeiro croqui, escrevo.

Escrever me organiza — e me desestabiliza.


Meus diários de processo não são feitos apenas de desenhos, mas de palavras, listas, frases soltas, leituras, sensações. São mapas de pensamento, fragmentos de lembranças, notas sobre materiais, poéticas que surgem sem aviso. Lido com o design como lido com a escrita: como quem tenta nomear o indizível. Gosto de pensar que meus objetos são ensaios tridimensionais, capítulos de uma pesquisa que nunca termina.


As palavras me conduzem à forma.

E a forma devolve novas palavras.


Essa relação é essencial para mim — e é também uma assinatura do meu trabalho. Meus textos têm sido tão procurados quanto minhas peças, e isso me importa porque escrever é parte do objeto. O texto o explica, mas também o expande. A forma nunca está sozinha — ela dialoga, provoca, responde, questiona.


Pesquisa curatorial: filosofia, política e design


Trabalho com design, mas pesquiso cultura, política, filosofia, artes visuais, antropologia e a história da construção do Brasil. Meu processo criativo se alimenta de referências que nem sempre pertencem ao campo do design, mas que estruturam minha compreensão de mundo. Não consigo projetar sem pensar na dimensão ética das coisas, na força simbólica da matéria, no impacto sensorial das formas, na narrativa que acompanha cada objeto.


Alguns autores me acompanham de forma definitiva.

Grada Kilomba, com seu pensamento incisivo sobre colonialidade e memória.

Denise Ferreira da Silva, com sua crítica radical às estruturas de poder.

Ailton Krenak, que me lembra que somos parte do fluxo maior da Terra.

José Mujica, cuja frase sobre a morte como “silêncio mineral” transformou meu entendimento sobre o que é permanecer.


Leio-os não como referências externas, mas como forças que atravessam minha prática. Eles me ajudam a pensar o design como ato político — não no sentido partidário, mas no sentido profundo da palavra: um gesto que atravessa o coletivo, que toca estruturas sociais, que denuncia apagamentos e que propõe reparações.


A matéria como metáfora


A madeira e o latão são, talvez, minhas matérias mais recorrentes. Mas não trabalho com elas apenas porque são belas — trabalho porque são simbólicas.


A madeira carbonizada, técnica que incorporo intensamente em minhas coleções, não é acabamento: é ritual. O fogo revela e oculta. É destruição e cura ao mesmo tempo. Sua superfície escura fala de apagamentos, mas também de resistência. Quando toco a madeira carbonizada, sinto como se tocasse camadas de história — a minha e a do mundo.


O latão, por outro lado, é memória quente. É afeto, é luz, é tempo. Ele oxida, muda de cor, transforma-se — como tudo que vive. Essa transformação contínua é, para mim, uma metáfora do próprio processo de existir. O latão carrega o brilho das coisas que importam, mas também a imperfeição que as torna reais.


Essas matérias estruturam o pensamento por trás das coleções Ancestral, Origem e Meios. Sou movido pela convicção de que o objeto precisa carregar significado — e que a matéria, quando utilizada com intenção crítica, se torna linguagem.


O gesto artesanal como forma de pensamento


No meu processo, a mão pensa antes da mente.

Trabalho muito próximo a marceneiros, serralheiros e artesãos.

Acredito profundamente na inteligência coletiva do fazer.


Quando carbonizo uma madeira, não estou apenas aplicando uma técnica — estou realizando um gesto ancestral. Quando dobro um metal, não estou apenas moldando uma chapa — estou compreendendo sua resistência, sua memória interna. Quando erro, aprendo mais do que quando acerto. É um laboratório de tentativa e falha, um espaço onde o tempo não é linear e onde cada material tem sua própria agência.


Meu processo é físico, sensorial, tátil.

Preciso tocar para pensar.

Preciso experimentar para entender.


O corpo inteiro participa da criação — e isso molda meu olhar para o design.


Narrativa como estrutura: cada coleção é um capítulo


Não crio peças isoladas.

Crio sistemas.

Crio constelações.


Uma coleção, para mim, não é um conjunto de produtos, mas um corpo teórico e sensorial. Ancestral é sobre as mulheres da minha história. Origem é sobre apagamento, resistência e reexistência. Meios é sobre crítica social através da geometria e da estrutura.


Cada coleção nasce de uma pergunta — e nunca de uma resposta.

O objeto é o ensaio.

O texto é o desdobramento.

A imagem é a atmosfera.


Tudo participa. Tudo comunica.


O tempo como camada de criação


O tempo, no meu processo, não é cronológico — é geológico.

A criação não é linear — é estratificada.

Trabalho por camadas, por retornos, por revisitações.


Uma ideia de hoje encontra outra de anos atrás. Um desenho antigo retorna com nova energia. Uma matéria esquecida reaparece com outra leitura. Meu processo é lento não porque demoro, mas porque respeito a necessidade de maturação da forma. A pressa não cria profundidade — e eu busco profundidade mais do que novidade.


O encontro com o outro: quando o objeto ganha alma


A peça só se completa quando encontra um corpo.

É no toque do outro que ela ganha sentido.

É no espaço do outro que ela ganha vida.


O design, para mim, é diálogo. Gosto de pensar que minhas peças carregam comigo, mas também se despedem de mim quando encontram suas novas casas. Elas se transformam nas mãos dos outros — e isso é parte essencial de sua existência.


Design como reparação


Há algo em mim que precisa fazer justiça.

Não justiça jurídica — justiça simbólica.


Quando crio, sinto que estou reparando memórias que foram diminuídas ao longo da história. Sinto que estou devolvendo visibilidade às mulheres que me construíram, aos afetos que me salvaram, às dores que me atravessaram, às ausências que me formaram. Cada peça é uma restituição íntima, mas também coletiva. É uma forma de dizer: eu vejo vocês.


Vejo os que vieram antes.

Vejo os que foram silenciados.

Vejo as histórias que ainda estão sendo contadas.


O design, para mim, é um instrumento de reparação poética — e, portanto, política.


Essa é a espinha dorsal da minha prática


Meu processo criativo é, ao mesmo tempo:


— íntimo

— político

— artesanal

— filosófico

— curatorial

— crítico

— afetivo

— rigoroso

— sensorial

— narrativo

— e profundamente humano


Não acredito no design apenas como estética.

Acredito no design como linguagem.

Como testemunho.

Como postura ética.

Como espaço de memória.

Como campo de resistência.

Como gesto de cura.


Crio porque preciso dizer algo que não cabe apenas na palavra.

Crio porque o objeto me permite tocar o mundo de outro jeito.

Crio porque a memória, em mim, não é passado — é futuro.

Crio porque o silêncio mineral é estabelecer presença.

Crio porque acredito que o design pode, sim, transformar estruturas.

Crio porque, ao criar, permaneço.

3 comentários

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Gêmea
27 de nov. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Poesia, introspecção, intensidade, memória, inspiração, talento. A coleção está linda demais e, lendo seus textos, tudo de encaixa

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Convidado:
27 de nov. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

👏🏼

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Daniel admo
26 de nov. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Saber sobre o processo criativo que antecede a obra do artista é uma raridade. Se apresenta como uma joia estabelecendo simbolismo e realidade as criações…

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