A equação do invisível: {_ancestral} * _origem + _meios = (en) fim’s
- Dan Azvdo

- 4 de nov. de 2025
- 6 min de leitura

Há momentos na história de um criador em que o trabalho deixa de ser apenas obra e passa a constituir um método de existir. Um território sensível em que a memória se converte em matéria, a matéria se converte em discurso, e o discurso se converte em um gesto de mundo. Este manifesto nasce desse ponto de inflexão — desse instante suspenso em que a trajetória não se organiza apenas retrospectivamente, mas se projeta como arquitetura do porvir.
Falar de ancestral, origem e meios é falar de três vetores que não se sucedem linearmente, mas que se tensionam, se multiplicam e se transformam um no outro. São verbos, forças, campos de fricção. Não formam uma cronologia, mas um sistema cosmológico, no qual cada elemento contém o outro em potência.
Por isso, a equação que estrutura este manifesto — {_ancestral} * _origem + _meios = (en) fim’s — não pretende explicar ou domesticar o trajeto, mas revelar sua lógica interna, seu impulso vital, sua gramática particular.
Este manifesto é uma fala sobre o passado, sim, mas também sobre o presente contínuo e, sobretudo, sobre o futuro: sobre aquilo que está sendo gestado enquanto ainda é silêncio, ainda é vapor, ainda é sopro.
Este manifesto é o corpo textual das coleções que o antecederam e das que virão.
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I. { _ancestral } – Onde tudo começa sem ter começado
A ancestralidade não é origem: é preexistência.
É aquilo que vibra antes de sermos capazes de nomear.
É o chão que nos atravessa mesmo quando acreditamos caminhar sozinhos.
É o gesto que se repete sem que saibamos que o repetimos.
Na coleção _Ancestral, não se trata de celebrar memórias idealizadas, mas de reconhecer que são essas memórias — com suas cicatrizes, tensões e delicadezas — que sustentam a possibilidade do novo. Não há futuro sem aquilo que veio antes, não por nostalgia, mas por coerência estrutural: a vida, no fundo, é um sistema de camadas, sedimentações, dobramentos.
Por isso, ancestral é mais do que uma coleção: é a convocação das mulheres que constituem o eixo sensível da narrativa — mulheres que enfrentaram mundos hostis, que viveram a dureza das estruturas patriarcais e que, apesar disso (ou por causa disso), transmitiram calor, alimento, resistência, afeto e horizonte.
Na precisão do latão há o eco do cuidado.
No vigor do jatobá, a permanência.
No brilho quente da matéria, a temperatura do amor que aquece, protege e forma.
Ancestral é raiz.
Não como prisão, mas como propulsão.
Raiz que empurra a árvore para cima enquanto a ancora abaixo.
É nesse território que o criador encontra sua primeira pergunta: “Quem me antecede quando penso que sou eu quem começa?”
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II. _origem – Entre o fogo e o silêncio mineral
Há vestígios que só emergem quando submetidos ao atrito.
O carvão revela o que o tronco ocultava.
O fogo não destrói — evidencia.
A coleção _Origem aprofunda a investigação que a ancestralidade inaugurou, mas desloca seu centro: o que antes era gesto de tributo torna-se agora gesto de escavação.
Se ancestral opera pela afirmação do que nos sustenta, origem opera pela revelação do que nos atravessa — inclusive aquilo que dói, incomoda ou insiste em permanecer nas sombras. É um território onde memória e crítica se entrelaçam de forma inseparável.
A madeira carbonizada, inspirada pela contundência poética e política de O Barco de Grada Kilomba, não é mero recurso formal: é linguagem, denúncia, temporalidade.
É a marca inscrita pelo fogo, lembrando que todo corpo carrega sua própria arqueologia, inclusive a da violência histórica, do apagamento, da travessia forçada e do silêncio imposto.
A fala de José Mujica sobre “a morte ser o silêncio mineral” inscreve-se aqui como camada filosófica. O silêncio mineral não é ausência — é transformação.
É o momento em que o corpo se converte em matéria e a matéria, por sua vez, se converte em memória geológica.
É quando a existência abandona o rumor da superfície e se deposita na profundidade, tornando-se vestígio cujo testemunho se dá não pela voz, mas pela presença.
Assim, origem é a escuta do que se encontra enterrado: nos materiais, nos corpos, nos territórios, nas histórias que não foram contadas, nas lacunas de tempo que insistem em perdurar. E como toda escavação, origem não oferece respostas, mas abre camadas, fazendo emergir as estruturas que sustentam a vida — e também as que a feriram.
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III. _meios – Onde forma e pensamento se encontram
Se ancestral convoca e origem aprofunda, _meios articula.
É a etapa em que gesto e raciocínio se integram;
onde intuição e estrutura se encontram;
onde o objeto afirma sua dupla condição de discurso e funcionalidade.
Meios é a consciência do entre.
Do limiar.
Do intervalo como território crítico.
Aqui, o design passa a operar não apenas como forma, mas como linguagem que organiza sensações e produz sentido. O campo da Gestalt, com suas leis de proximidade, continuidade e fechamento, torna-se menos teoria visual e mais metáfora existencial: somos feitos dos modos como interpretamos o mundo, das relações que estabelecemos entre as partes, dos vínculos que criamos entre um elemento e outro.
A coleção _Meios é justamente isso: uma arquitetura de relações, um sistema em que o objeto não termina em si, mas se expande para o espaço, para o corpo, para o gesto que o utiliza.
Meios é o espaço-tempo onde o pensamento se materializa.
Não é destino, mas travessia.
Não é conclusão, mas processo.
É o território em que se compreende que o verdadeiro significado raramente está no extremo — quase sempre está no entre.
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IV. (en) fim’s – O desaguar que anuncia o início
Toda travessia exige um ponto de desembarque.
Mas todo desembarque contém, em si, um novo horizonte.
É desse paradoxo que nasceu (en) fim’s —uma coleção que não encerra o ciclo, mas o amplia; não conclui a narrativa, mas a tensiona; não coloca um ponto final, mas abre um portal.
(en) fim’s é o lugar onde ancestral, origem e meios se entrelaçam, se multiplicam, se dissolvem e se reorganizam. É um espaço de síntese e, simultaneamente, de dispersão. É a consciência de que o fim, quando assumido como linguagem, transforma-se no prenúncio do que está prestes a emergir.
Por isso, (en) fim’s não é coleção — é cosmologia futura.
Um sistema respirando no invisível, preparando-se para tomar forma.
É desse campo fértil que nascem as coleções que virão:
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V. coleção _Ar – A leveza como arquitetura do invisível
Ar é aquilo que existe mesmo quando não vemos.
É presença-limite.
É substância sem forma aparente, mas capaz de mover o mundo.
A coleção _Ar nasce da necessidade de pensar o objeto para além da matéria sólida, buscando a delicadeza da suspensão, a transparência que revela, a leveza que organiza o espaço sem dominá-lo. Luminárias em aço e vidro não são apenas exercícios formais, mas estudos sobre vibração, fluxo, permeabilidade e luz.
Elas respiram.
O aço, rígido, dialoga com o vidro, etéreo.
O peso e o sopro.
A estrutura e o vazio.
O visível e o que apenas se insinua.
Ar é um convite à atenção.
Um gesto que afirma que o essencial, frequentemente, está no que passa e não no que permanece.
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VI. Coleção Ouro Preto – A topografia da história como matéria viva
Ouro Preto é uma cidade que não se limita ao território:
é uma memória geológica, histórica, estética, espiritual.
É dobra, é barroco, é fissura.
É corpo de pedra que respira passado e insiste em renascer no presente.
A pesquisa de campo realizada em Minas Gerais permitiu aproximar o olhar não apenas da arquitetura e da urbanidade da cidade, mas de sua profundidade filosófica: o barroco mineiro como pensamento, como exagero, como tensão entre luz e sombra; a montanha como metáfora de resistência; o minério como testemunho do extrativismo, da riqueza e da dor.
A _coleção Ouro Preto nasce desse encontro entre o território e a autobiografia, entre a história coletiva e a memória íntima. É uma coleção que escava o chão para revelar suas contradições, mas também suas potências.
Um gesto de retorno ao passado, não para fixá-lo, mas para confrontá-lo e, quem sabe, ressignificá-lo.
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VII. A equação como manifesto filosófico

A fórmula que organiza todo este manifesto — {_ancestral} * _origem + _meios = (en) fim’s — não é matemática: é metafísica.
Não opera com números, mas com intensidades. Não descreve processos, mas os convoca.É uma equação que revela como cada coleção é, simultaneamente, parte e multiplicação das outras.
_ancestral vezes origem: não é soma, é explosão de tempo.
É multiplicar profundidade por memória, é cruzar raízes com escavações.
_origem somada aos meios: é crítica mais estrutura, arqueologia mais forma, silêncio mais gesto.
E tudo isso desaguando em (en) fim’s: um campo aberto, um horizonte poroso, um vocabulário ainda em gestação. (en) fim’s não é a resposta final — é a pergunta que permanece.
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VIII. O manifesto como geografia do porvir
Este texto não pretende explicar as coleções; pretende situá-las dentro de uma narrativa maior.
Uma narrativa que não busca conclusão, mas continuidade.
Uma narrativa que compreende o design como gesto político, poético, espiritual e intelectual.
Uma narrativa que entende o objeto como portador de linguagem, pensamento e memória.
Assim, este manifesto é o mapa de um território em movimento.
Ele é, simultaneamente:
• arqueologia e antecipação
• denúncia e delicadeza
• matéria e metáfora
• raiz e vento
• gesto ancestral e tecnologia sensível
• crítica e poesia
• corpo e cosmos
• fim e começo.
Porque, em última instância, criar é operar com tudo que nos constitui — inclusive com aquilo que ainda não sabemos nomear.



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